Lápis de cor: meu processo com os materiais de arte e o "ser artista".

por Marcela Campbell

Marcela Caompbell se aventurando nos desenos em grande formato com lápis de cor.

Uma das minhas grandes crises no mundo da arteterapia está em minha dificuldade de me definir como artista. Mesmo tendo livros publicados, estando antenada no mundo teatral e cinematográfico, dançando pela casa em vez de andar, desenhando constantemente, enviando áudios cantados. Não consigo me assumir como pessoa artística pelo fato de não ter “conhecimentos técnicos” ou um papel que afirme que estudei para tal.

Embora a arte possua enorme presença em minha vida, em qualquer momento de insegurança profissional, o medo de “não ser artista” me sabota com força. Apaixonada pelo universo das artes plásticas, sigo muitos artistas no Instagram e sempre que posso compro uma obra, apoio catarse, mando mensagens e compartilho seus trabalhos. Atualmente, vi um reels[1] em que uma artista mostrava os “materiais que já usou muito e agora não usa mais”, “o material favorito” e “o que tem pena de usar”. Estes foram: lápis, aquarela e um pigmento específico, respectivamente.

Quando me questionei esses três tópicos, tornou-se muito claro meu apego com os lápis de cor. Percebi que estou neles há muito tempo e existia um julgamento velado sobre “não me explorar mais com os materiais” e como isso me afetaria como artista e arteterapeuta. Compreendi também que a maioria dos artistas que sigo produzem com tinta – grande parte, aquarela.

E foi neste momento em que minha insegurança e o boicote surgiram com força.

Decidi que tinha de começar a pintar mais ou que talvez devesse entrar em uma graduação de história da arte ou artes visuais. Afinal, como poderia atuar como terceira mão[2]se não conheço “técnica”? Nunca fiz teatro, nunca fiz aula de desenho, nem de fotografia, muito menos de música. Me cobrava para ser mais versátil, para conhecer mais “técnicas” ou nunca seria uma boa arteterapeuta.

Retirando minhas aquarelas do armário, assoprando o pó dos pinceis, sujando diversos copos e pratos, nesta jornada de “ter que usar aquarela porque todos os artistas que me inspiram estão usando e eu preciso aprender a usar essa tinta”, pude perceber três pontos: o primeiro é que me divirto muito com esse material, o segundo é que preciso errar muito para me familiarizar com a aquarela e o terceiro, mas não menos importante, é que a razão pela qual não usava a aquarela era bem simples: eu não queria.

Enquanto brincava com a tinta, compreendi que o motivo pelo qual uso majoritariamente o lápis de cor é porque ainda estou aprendendo muito com ele. Há um ano e meio, quando me aprofundei nesse processo, meus desenhos eram mais rasos, monocromáticos, sem perspectiva, não havia finalização, entre outras características. Tinha acabado de sair de um uso constante da canetinha para adentrar no lápis de cor e, às vezes, alternar com o giz de cera.

Após quase dois anos com o lápis, comecei a observar mais o entorno e desenvolvi uma visão mais ampla da obra. Aprendi a projetar e pensar enquanto desenho, também entendi a parar, observar, modificar e estruturar. Os trabalhos deixaram de ser monocromáticos e ganharam jogo de luz e sombra, misturas de cores e finalização. Comecei a me preocupar com a estética e a ter orgulho dos meus trabalhos.

Neste processo com a aquarela e o lápis compreendi que “aprendi técnicas” e que não foi preciso uma validação externa, voltar à graduação ou concretizar qualquer ideia mirabolante que a insegurança havia criado. Foi necessário estudar, provar, testar, errar e até buscar ajuda com quem sabe mais.  

Então, a razão pela qual ainda estou no lápis é porque me sinto acolhida pelo cheiro de madeira, pelo toque no papel, pelos traços, porque me sinto confortável e sinto que ainda tenho muito o que aprender. 



[1] Ferramenta do Instagram que consta como vídeo de no máximo 30 segundos.  

[2] Conceito de Edith Kramer em que o terapeuta auxilia com técnicas artísticas durante o processo do clientes a fim de evitar frustrações desnecessárias.



Marcela Figueiredo Campbell é psicóloga pela PUC-RIO (2018), terapeuta artística e criativa por ISEP, Madrid, Espanha (2020), escritora dos livros Aprendendo em Seis (2014), A garota dos olhos violeta (2018) e Érase una vez en el mundo de las psicosis: las técnicas narrativas ancestrales como herramienta de investigación en personas com psicosis (2021). Esteve na Casa das Palmeiras (2016-2018), Asociación Española de Apoyo a Psicosis, AMAFE (2019-2021), e Asociación de Familiares y Amigos de Enfermos Psíquicos, AFAEP (2019-2020), colaborando com pessoas diagnosticadas com psicose, na Cruz Vermelha Espanhola (2020) atuando com indivíduos com distintas adicções e em Comisión Española de Apoyo al Refugiado, CEAR (2019-2020), com pessoas em situação de imigração e refúgio. Trabalha na clínica individual e terapia de grupo.

Saiba mais sobre a autora: www.mardeafectos.com

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